01/10/2011

Poliana em Tempo de Crise Cap.III - continuação


Capitulo III: 
Cenas de Um Divórcio:

Cena 2 - Divorciados sim, e dai?

- Liliana, você vai sair?
- Vou.
- Não pede mais não?
- Posso sair?
Liliana, ou melhor, Lia, quinze anos. Gênio terrível. Aborrecente total e absoluta. Minha filha. Diálogo com ela não demora mais de um minuto, embora eu e Adalto tentemos sempre conversar. Mas, normalmente acaba sendo monólogos, o que fazemos, intercalados de expressões como: Tipo assim, tá, a coisa, cara e etc. Já pensei em criar um dicionário para melhor entendê-la, mas seria pouca coisa, cerca de 20 palavras apenas. Afinal, desde os doze anos ela não fala mais do que essa quantidade.
No entanto, eu queria conversar com ela. Explicar sobre o divórcio. Já havia lido sobre o trauma da separação em crianças e adolescentes, em milhares de livros. E não queria traumatizar minha filha. Vai que ela fique famosa no futuro e depois em rede nacional culpe a mãe e o pai pela vida infeliz e solitária que possa vir a ter. Melhor prevenir.
- Eu e seu pai queremos conversar com você.
- Vai demorar? Tenho uma balada para ir.
[Balada - Composição musical de caráter épico, 2. Composição musical sem forma definida, 3. Composição poética popular antiga, acompanhada ou não de música... Não, minha filha não iria sair com as amigas a compor canções épicas ou coisas parecidas. A balada em questão era uma festa ou boate ou apenas papo furado na casa de uma delas.]
- Vai demorar um pouco sim.
- Unhf!
[Gemido sem significado lógico, mas que podia expressar tédio, nojo, desprezo, descaso ou outras variações. Normalmente acompanhado de um jogar-se no sofá ou poltrona mais próximo.]
Betânia, a mais nova, ainda possível de se entender e domesticar brinca sobre o tapete com a boneca. Chamo Adalto.
Ignorando a expressão de enfado de Liliana e ignorados por Betânia, que acha os brinquedos bem mais interessantes que os pais. Começamos.
- Filhas, eu e seu pai, queremos dizer que a culpa não é de vocês...
[ péeeemmm! Tudo errado. Mas não existe delete na vida real, então começou torto mesmo.]
- Não Poli. É melhor ser direto. Ir direto ao ponto.
- Então fala você!
- Tá bom.
- É sempre assim, você fica me criticando na frente das meninas...
- Vão ficar brigando ou vão falar? Que saco! 
- Tá vendo o que você fez?
- Eu não fiz nada! Só acho que não dá para ficar enrolando. Fala logo!
- Isso vai demorar...
- Não Liliana, isso não vai demorar, mas você podia ser um pouco mais gentil com sua mãe!
- Obrigada, querido. Bem, eu e seu pai... A gente... Nós...
- O que é isso? Aula de Português?
- Mocinha, já falei que não quero deboche nessa casa!
- Tá. Tá.
- Eu e sua mãe resolvemos nos divorciar. Pronto, falei!
- Posso sair agora?
- Você não vai falar nada?
- É para falar alguma coisa? Vocês vão se separar, e daí?
Eu esperava tudo! Lágrimas, revolta, explosão! Mas indiferença? Isso não. Betânia continuava a brincar, tudo bem, ela só tem cinco anos, mas Liliana não demonstrava nem surpresa.
Na verdade já estava com a bolsa nas mãos, só aguardando a liberação para sair.
- Você não vai ficar triste? Eu e seu pai iremos nos separar!
- Mãe, você sabe quantos casais se separam diariamente? Um monte! Vocês são apenas mais um, e daí? Viva, entrei para as estatísticas! Sou filha de pais separados, dãa!
[Dãa! Outras das expressões típicas dela, uma mistura de "idiotas!" Com "Que babacas!" - usada normalmente quando ela achava algo ridicularmente fácil ou claro e nós ficávamos tentando explicar o que ela já havia compreendido]
Sem argumentos para combatermos sua lógica, deixamos que ela fosse a tal balada. Restava a outra, agora. Quem sabe tivesse um pouco mais de sensibilidade que a irmã mais velha?
Adalto pega a pequena no colo.
- Linda mamãe e papai vão se separar.
 Ela ergue os olhos, carinha de quem não está entendendo nada.
- Tá.
- O papai quer dizer que ele não vai morar mais com a gente.
- Não? E vai morar aonde?
- Ainda não sabemos, por enquanto, na casa do Tio Lucas.
- E eu? Vou morar aonde?
- Aqui mesmo. Com a mamãe.
- Por que?
- Por que, o quê?
- Por que papai vai embora?
- Ele não vai embora, ou melhor, vai! Mas, vai continuar vendo você e a Liliana.
- A Liliana também vai embora?
- Não, querida, claro que não.
- Duga!
- Heim?
- Duga! Eu queria que ela fosse também!
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Este texto faz parte do Romance: Poliana em Tempos de Crise e você pode ler os capítulos anteriores nos links abaixo:

Capitulo I - A Arte de Dormir numa Cama Inflável
Capitulo II  - Muito Prazer, Sou Poliana

Capítulo III - Cenas de um Divórcio - 
Cena 1 - Homens não prestam e mulheres não sabem o que querem. 
Capítulo III - Cenas de um Divórcio Cena 1 - Homens não prestam e mulheres não sabem o que querem. (cont)


4 comentários:

Joana disse...

Então vão se separar MESMO?!?!
Sem chance? rs
Muito bom.
Beijinhos

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

Não é fácil ser Poliana em tempos de crise, qualquer que seja a crise.

tá bem legal a série, Patrícia!
bjs

Cissa Branco disse...

Patrícia,

Sou fã incondicional da Poliana, e esse episódio está perfeito, adorei a pequena e sua ânsia em se libertar da irmã, kkkk. Muito bom!
Beijos

Tays Rocha disse...

Essa Poliana me faz pensar... e reavaliar as coisas, justamente pq eu não consigo ser "Poliana", tô gostando ;o)

Beijocas ♥