12/05/2013

O Labirinto

Haviam paredes. Altas. Longas e que se estendiam por todos os lados. Cinzas paredes de concreto. Estreitos caminhos que ela começou a percorrer a procura da saída. Encontrou portas que se abriam para outras portas e que sempre a conduziam para os mesmos escuros corredores, ladeados por paredes cinzas. Intermináveis.

Um labirinto. Concluiu. E não adiantava caminhar às cegas. Procurava um coelho branco, mas não havia, nem pílulas vermelhas ou azuis. Nem marcações imaginárias. O labirinto e ela eram os únicos. Paredes altas e cinzas. E portas que a conduzia a lugar nenhum.

Não havia hora, nem dias, o céu não aparecia, e ela bem que tentou deitar-se no chão e enxergar qualquer coisa além do concreto. Mas não havia céu. Por isso, dias e noites eram nada. Caminhava apenas, buscando a saída imaginária. Quem sabe é uma provação? Achava.

Deixar marcas nas paredes, sinais que indicassem que por lá já havia passado. Uma linha, claro, como na mitologia. Mas roupas de malha não desfiam. Decidiu desnudar-se a cada porta. Blusa, calça, sapatos, calcinha e sutiã, espalhados ao longo do caminho. Não foi suficiente. O labirinto era maior do que ela.

Feriu os dedos nas paredes, deixando uma linha de sangue. Pontos vermelhos no escuro concreto.

Aos poucos percebeu outra presença. No inicio, passos, achou que era imaginação, loucura causada pelo estresse de estar presa ali. Depois um constante arfar.

Minotauro. Claro. Todo labirinto tem sua fera presa, prestes a devorar os que ousaram perturbar sua solidão. Seguia seu passos, ela sabia. Sentia o cheiro do sangue que gotejava dos seus dedos. Mais aflita ficou. Precisava achar a saída.

As marcas deixadas tiveram sua função, evitava retornos a pontos já percorridos, desviava de portas que traziam seus dedos estampados em vermelhos. Outros caminhos, paredes, corredores, talvez a saída fosse a próxima porta, ela pensava. Mas nunca era.

A besta agora sussurrava cada vez mais próxima, e já não era a saída que ela buscava, mas fugir do Minotauro que a seguia. Não interessava mais achar suas marcas, nem deixar o sangue como referência. A segurança estava no constante caminhar, indefinidamente.

O cansaço a fazia tropeçar, raspar paredes... cambaleando abria a próxima porta e suspirava aliviada ao ver apenas um estreito corredor e nada da fera. Até o momento que de tão cansada, não queria mais achar a saída, nem fugir do seu perseguidor implacável. Queria apenas deitar-se sobre o frio chão e esquecer. Esquecer do labirinto, de saídas imagináveis, de minotauros...

Queria apenas ficar ali, estirada no piso, deixando o concreto penetrar em suas veias, até virar ela também parte daquilo.

O minotauro encontrou-a estátua cinza. E num gesto delicado, carregou-a até o centro do labirinto, onde outras, também frias estátuas, contemplavam um céu que não existia.

Mas não houve tempo para amaldiçoar, mais uma vez, a própria sorte, ao longe a fera já ouvia a porta que se fechava e outra mulher a caminhar por entre os corredores do labirinto.

18/04/2013

Meu Filho Sofreu Bulliyng, E Agora?

A gente fala sobre a coisa. Tece mil teorias. Lê livros que ensinam a identificar os sinais. No entanto, a gente não enxerga. Ou não conta, que seu filho esconda os detalhes, por medo, por não querer "te deixar nervosa", por não querer denunciar os amigos da sala.

Mas, então, a coisa toda vem à tona, da pior maneira possível. Um dia, você chega na escola e tem que assinar um documento, que relata que meu filho sofreu um "acidente" na aula,  "um amiguinho acertou um casaco com a ponteira de metal" no seu filho, e que isso resultou num corte na têmpora dele. Corte, graças a Deus, não tão fundo, mas que sangrou e deixou marcas, mais psicológicas, que físicas.

Então, ao conversar com seu filho, longe das figuras dominante do colégio, tais como professores e direção, você descobre, que o "acidente" foi uma briga, na qual um aluno deu socos e chutes nele, mesmo quando caído no chão... E que o casaco, foi uma tentativa de impedir meu filho de chamar o professor...

Podemos não ser os melhores pais do mundo, mas tentamos ensinar ao nosso filho, valores tais como: ética, responsabilidade, não-violência... Fiz quase uma lavagem cerebral nele, explicando que se ele fosse agredido, não revidasse, mas chamasse o adulto responsável, no caso, o professor. E, neste caso, ele fez exatamente o que ensinei para ele. O problema, é que professor responsável (?), por algum motivo, estava ausente na hora do ocorrido. 

Você não quer acreditar no que aconteceu, mas seu cérebro de repente começa a juntar as peças e montar um quebra-cabeças de horror: como no dia que seu filho não quis fazer a prova toda, "porque não queria ser o melhor", ou MB, como o município chama os melhores alunos., ele queria apenas ser "normal", ou nas muitas vezes, em que ele se recusou a ir a escola, ou nas outras vezes, em que ele saia da aula, com um aspecto mais calado. E, de repente, você se dá conta, que seu filho está sofrendo bulliyng, e seu chão desmorona. A frágil ilusão de que aquilo que você discutia em tese e assistia nos noticiários chegou na sua parte mais delicada, no teu cerne, na tua carne, que é o seu filho. E, você demorou a perceber...

Ai, você tem que aprender a lidar, de verdade, com aquilo. E se sente perdida. Pois se deixar a raiva tomar conta e sair botando a boca no mundo, quem vai lidar com as consequências da sua indignação, dentro da sala de aula, não é você. Mas aquela criaturinha de sete anos, que agora me pergunta se apanhou porque é gordo. Que não quer comer chocolate para não engordar. Que quer ficar "sarado" ou ser apenas um menino normal, para que ninguém o enxergue e o agrida por ser diferente.

Óbvio, que assim que a professora me entregou meu filho com um corte, ainda sangrando na cabeça, meu primeiro movimento foi querer ir numa delegacia, dar queixa. Processar o colégio, etc  Mas, quando o sangue esfria, vem a realidade de que se você fizer isso, vai ser ele, que vai ter que lidar com professores acusados, que vai ser ele, que vai ter que continuar a conviver com o agressor em sala de aula...

E, apesar de tudo, meu filho está adaptado a sua turma, ao seu colégio, e qualquer mudança brusca, pode ser ainda mais traumática. 

Conversar. Essa é a palavra chave, conversar com o professor responsável pela turma, no dia em quem a agressão aconteceu, conversar com a direção e se for preciso, conversar com os pais do menino agressor. Conversar, principalmente com meu filho, e mostrar para ele, que infelizmente, o mundo cor-de-rosa, que os pais pintaram para ele, não existe. Mostrar que ele não é a única criança agredida no mundo. Mostrar para ele, que sim, existem pessoas preconceituosas, e que ele sempre irá se deparar com elas por ai, mas que o preconceito delas é que feio, e que caráter, não se define pelo peso que você tem . Conversar para que ele possa se defender, não revidando as agressões, mas gritando, pedindo ajuda. Conversar muito. E, principalmente, que seus pais estão aqui, sempre, e que sempre estarão ao lado dele, prontos para defendê-lo daquilo que pior a sociedade produz.

Por último, para toda criança que sofre bulliyng, temos um bully, que tem pai e/ou mãe. Então observe os sinais, pois seu filho pode não ser o que sofre, mas o que agride. Mas, com uma boa educação e ajuda (até mesmo terapêutica, se for necessário), você pode mudar o destino de duas crianças... Pense nisso.

E deixo aqui o link de um vídeo, extremamente chocante, onde crianças mais velhas, assistem e incitam a agressão a uma menor: http://globotv.globo.com/rede-globo/sptv-1a-edicao/v/crianca-e-agredida-dentro-de-condominio-em-sao-bernardo-no-abc/2519514/

(Queria agradecer a Rogéria, a Fernanda Reali e a Claudia Pinto, que muito me ajudaram a enfrentar esse problema e deram dicas preciosas)

UPDATE:  Vamos falar sobre isso? Seu filho, você, ou alguém que você conheça sofreu/sofre com o bulliyng? Quer contar? Manda pra mim seu depoimento, pelo e-mail patricia.daltro@gmail.com - vou abrir o  blog para outros que também sofrem/sofreram. A ideia é abrir um debate sobre o tema e pensar coletivamente como proteger nossas famílias, principalmente nossos filhos, do bulliyng.


05/04/2013

Definidamente pedra

http://www.melhorpapeldeparede.com/images/pedra-2940.htm

Foi então que a moça do RH perguntou ao grupo, o que eles seriam, se não humanos. Ouviu de um que seria uma ave; de outro, um peixe; teve quem quisesse ser leão, até chegar a vez dela. Que queria ser pedra.
Uma pedra? Exclamou a moça do RH, já anotando em sua prancheta, algo, provavelmente não bom. Mas pedra é estática, imutável. Pouco dinâmica.

Ela sorriu baixinho. E pensou como era errado isso. Uma pedra imutável? E a flexibilidade de deixar que as estações criem sua marca? O vento, a cada dia, molda seu corpo, criando esculturas naturais, tão lindas e únicas, que nunca serão iguais, pois a cada molécula que ele extrai na sua passagem, muda aquela pedra que se encontra em seu caminho.

E a chuva? Que com sua gotículas, cria vincos e sulcos, dilapidando-a como uma jóia.

Ah, e ser pedra, era ser marco. Ponto de referência dos que partiam, dos que voltavam. Dos que precisavam apenas do seu apoio, mesmo que momentâneo, para seguir em frente.

Eram de pedras as pirâmides, também de pedra foram as primeiras ferramentas e moradias, inicio de uma nova era da humanidade.

E, sabe? As pedras dentro do rio, rolam, transformando-se em seixos que seguem no rumo da correnteza, até chegar ao mar, morada final. Onde virarão habitat de corais e espécies tantas.

Sim, ela era pedra! Definitivamente pedra. Definidamente pedra.