21 de dez de 2013

Conta-Gotas

Tem dores que gritam. Que chegam com a velocidade (e a intensidade) de um tsunami. Devastam tudo que encontram pela frente e terminam deixando a gente ali, feito trapo, de olhos vazios e tentando entender o que aconteceu. 

Tem dores que chegam suavemente, normalmente numa tarde de domingo. E travam a garganta, marejam olhos e a gente apenas anseia por um lugar para se encolher e esperar ela se ir. 

E tem aquelas dores que vem se construindo pouco a pouco. Peças que se encaixam. Como pingos de conta-gotas diversos sobre um mesmo copo. É uma gota de desamor aqui, de uma frase mais ácida acolá, de um não inconveniente ali. 

Essa dor tem vários motivadores, do marido que se atrasa sempre, do filho que grita eu te odeio, da filha que diz que nunca vai ser como ela... Do vizinho que é agressivo ao pedir algo, do vendedor que é grosseiro no atendimento, do amigo que fala ou faz algo, que nem ele sabe, mas machuca, das frases ditas – “porque acho que é o melhor pra você”, “porque achei que você não se importava” – mas a gente se importa (sempre) e aquilo pode ser o melhor pra gente, mas não naquele momento, não naquela hora. Gotas que pingam numa constância infinita... 

E um dia, o copo transborda. Silenciosamente a dor ultrapassa as comportas adequadas e encharca a gente. Nossa alma fica inundada de dor. E a gente quer chorar, quer se encolher tanto até voltar ao tempo onde a dor era apenas física e se curava com promessas de quando casar passa. 

Num dia de copo cheio, a vontade que se tem são das águas da chuva, sentar no meio-fio deixando que toda aquela construção de dor se desfaça nas cálidas águas, para depois seguir em frente, copo vazio. Sonhando em nunca mais vê-lo transbordar daquele jeito. Mas, realista demais para entender, que a vida também é feita disso: dores pingadas no cotidiano.

Um comentário:

Glaucia Schuindt disse...

Belo texto. Belo ângulo!