21 de set de 2009

A Mulher da Foto

Coisa boa é chegar da rua, depois de uma manhã esgotante e dar de cara com uma notícia maravilhosa: Meu conto A MULHER DA FOTO foi o vencedor do concurso de contos promovido pela Vanessa do blog Fio de Ariadne.

Fiquei feliz, envaidecida e, é claro, muito orgulhosa, principalmente por saber das qualidades fantásticas dos outros contos participantes!

Nossa, obrigada Vanessa por essa chance e estou louca para começar a ler o meu prêmio, o livro de Francine Prose Para ler como um escritor da Jorge Zahar Editor.


Além de tudo isso, ainda fui presenteada com o comentário da Georgia Aegerter dos blogs Saia Justa e O que elas estão lendo?! sobre A mulher da foto, vencedor do concurso : "Sensacional a maneira como este escritor/a interligou a Macabea de Clarice Lispecto à sua Macabéa. Desta forma, dois níveis de existência se fundem e dialogam entre si. A procura da mulher da foto. O próprio narrador revela seu amor incabível pela personagem; sofre por ele, sonha e nao se conforma com o próprio destino e volta ao Sebo numa busca de realizacao. Se me lembro do romance de Macabéa; digo que A mulher da foto, foi muito bem escrito; nao há um momento sequer plágio e sim um novo romance dentro de um outro romance. Uma das coisas que mais gostei foi mesmo essa ousadia do autor. Parabéns!"

Nossa, tudo isso faz um bem danado ao coração da gente, e só estimula a minha vontade de escrever mais e mais.

E, é claro, tenho que agradecer com todo o meu amor, à Clarice Lispector, que com seu belíssimo romance "A Hora da Estrela", inspirou a escrita desse conto. Desde que eu o li a primeira vez, amei Macabéia! E esse conto foi a minha maneira de homenageá-la.

Abaixo, o conto vencedor do concurso.

A Mulher da Foto

Apaixonara-se pela foto. Uma mulher de cabelos ondulados, cor indefinida. Olhos e peles num colorido desbotado de foto, não antiga, mas que já sofrera nas mãos do tempo.

O mais estranho é que ele não conhecia a mulher. A foto fora encontrada dentro de um livro, A Hora da Estrela, comprado num sebo no centro da cidade. Adorava Clarice Lispector e particularmente a estória de Macabéa. A estrela escondida no seio da cidade grande. O livro estava na vitrine. Coisa rara, tratando-se de um livro antigo para os padrões editoriais.

Durante o dia inteiro, após a compra, lutara contra a vontade de largar o serviço e sentar-se num banco de praça e entregar-se à simplicidade cativante de Macabéa. Em casa, a noite, copo de refrigerante na mão, o cigarro na outra, iria finalmente começar a leitura. Então a foto escorregou por entre as páginas, planando suavemente até o tapete.

E fora ali que ele se apaixonara. Atrás da foto, lembranças do verão passado... Mas que verão? Ele queria saber. Não havia como. Por não haver nomes, chamou-a Macabéa, dando rosto ao personagem tantas vezes admirado.

Na cama, a imagem da mulher surgia por entre as pálpebras, invadindo seus sonhos. Ela sorria e desaparecia dentro de um ônibus. Outra hora, podia vê-la observando vitrines, tomando sorvete de casquinha... Ele tentava seguir, mas a mulher desfazia-se em brumas na próxima esquina.

Acordou mais cansado do que deitara. A foto sorrindo sobre o criado-mudo. No trabalho, as horas se arrastavam, a cabeça doía, alguma coisa dentro dele parecia prestes a arrebentar e tudo que ele conseguia pensar era como encontrar Macabéa, a mulher da foto.

Saída do serviço encaminhou-se para o sebo. Embora improvável, único lugar que poderia dar-lhe alguma pista. O racional embotava-lhe o cérebro com pragmatismos vãos. Poderia ser a foto de uma pessoa morta, ou ainda, de alguém que poderia ser sua mãe, ou ainda, uma digníssima senhora, casada e mãe de quatro filhos... hipóteses racionalmente possíveis, mas inconscientemente descartadas uma-a-uma. Ele amava a mulher da foto. A sua estrela, Macabéa dos seus sonhos.

Em frente ao sebo, a surpresa. Não havia mais nada, ou melhor, havia um café. Mas como um sebo se torna café do dia para a noite. E as pessoas ali? Aquilo sempre fora um café? Sim, responde uma garçonete oxigenada, sem nem olhar para ele. Glória? - pergunta ele. Como sabe? ela pergunta, olhando-o com um pouco mais de atenção. Não era mais um dos desesperados que costumavam freqüentar o lugar. Ensaia um sorriso, mas ele já saira. Olhando ao redor. Maluco, isso sim. Sentencia. Voltando à limpeza da mesa.

Agora a angústia transborda peito. A certeza de que a mulher da foto não existe, de que o sebo não existe, de que finalmente acontecera. A loucura, a sina decretada por uma vizinha quando, ainda moleque, escondia-se no fundo do quintal enlameado, procurando palavras escondidas para preencher as lacunas das folhas em branco.

Então era assim a loucura, ele pensa, arrastando pés em direção a algum lugar onde não importava mais. Macabéa não existia. Foto esquecida no livro, ficção.

O som do carro derrapando e dos gritos chegou aos seus ouvidos num repente. A multidão, figura principal nos momentos de tragédia, já se compactava ao redor, enquanto um Mercedes Benz fugia em disparada. No asfalto, a mulher da foto, Macabéa que virava estrela, cercada de atenção e público, morria.

Mas esse não era o final que ele esperava. Por isso ligou do celular pedindo uma ambulância e afastou a multidão. Enquanto esperava o socorro, sentou-se ao lado da mulher caída no asfalto, segurando a sua mão.

Gesto inesperado, ela procurou seus olhos e ele viu o que já esperava encontrar, reconhecimento. A cartomante estava certa, ouviu sua voz dizendo, num sussurro confuso de sangue e suor, agora tenho um destino... Sim, ele confirmou, nós dois temos.

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