18 de abr de 2013

Meu Filho Sofreu Bulliyng, E Agora?

A gente fala sobre a coisa. Tece mil teorias. Lê livros que ensinam a identificar os sinais. No entanto, a gente não enxerga. Ou não conta, que seu filho esconda os detalhes, por medo, por não querer "te deixar nervosa", por não querer denunciar os amigos da sala.

Mas, então, a coisa toda vem à tona, da pior maneira possível. Um dia, você chega na escola e tem que assinar um documento, que relata que meu filho sofreu um "acidente" na aula,  "um amiguinho acertou um casaco com a ponteira de metal" no seu filho, e que isso resultou num corte na têmpora dele. Corte, graças a Deus, não tão fundo, mas que sangrou e deixou marcas, mais psicológicas, que físicas.

Então, ao conversar com seu filho, longe das figuras dominante do colégio, tais como professores e direção, você descobre, que o "acidente" foi uma briga, na qual um aluno deu socos e chutes nele, mesmo quando caído no chão... E que o casaco, foi uma tentativa de impedir meu filho de chamar o professor...

Podemos não ser os melhores pais do mundo, mas tentamos ensinar ao nosso filho, valores tais como: ética, responsabilidade, não-violência... Fiz quase uma lavagem cerebral nele, explicando que se ele fosse agredido, não revidasse, mas chamasse o adulto responsável, no caso, o professor. E, neste caso, ele fez exatamente o que ensinei para ele. O problema, é que professor responsável (?), por algum motivo, estava ausente na hora do ocorrido. 

Você não quer acreditar no que aconteceu, mas seu cérebro de repente começa a juntar as peças e montar um quebra-cabeças de horror: como no dia que seu filho não quis fazer a prova toda, "porque não queria ser o melhor", ou MB, como o município chama os melhores alunos., ele queria apenas ser "normal", ou nas muitas vezes, em que ele se recusou a ir a escola, ou nas outras vezes, em que ele saia da aula, com um aspecto mais calado. E, de repente, você se dá conta, que seu filho está sofrendo bulliyng, e seu chão desmorona. A frágil ilusão de que aquilo que você discutia em tese e assistia nos noticiários chegou na sua parte mais delicada, no teu cerne, na tua carne, que é o seu filho. E, você demorou a perceber...

Ai, você tem que aprender a lidar, de verdade, com aquilo. E se sente perdida. Pois se deixar a raiva tomar conta e sair botando a boca no mundo, quem vai lidar com as consequências da sua indignação, dentro da sala de aula, não é você. Mas aquela criaturinha de sete anos, que agora me pergunta se apanhou porque é gordo. Que não quer comer chocolate para não engordar. Que quer ficar "sarado" ou ser apenas um menino normal, para que ninguém o enxergue e o agrida por ser diferente.

Óbvio, que assim que a professora me entregou meu filho com um corte, ainda sangrando na cabeça, meu primeiro movimento foi querer ir numa delegacia, dar queixa. Processar o colégio, etc  Mas, quando o sangue esfria, vem a realidade de que se você fizer isso, vai ser ele, que vai ter que lidar com professores acusados, que vai ser ele, que vai ter que continuar a conviver com o agressor em sala de aula...

E, apesar de tudo, meu filho está adaptado a sua turma, ao seu colégio, e qualquer mudança brusca, pode ser ainda mais traumática. 

Conversar. Essa é a palavra chave, conversar com o professor responsável pela turma, no dia em quem a agressão aconteceu, conversar com a direção e se for preciso, conversar com os pais do menino agressor. Conversar, principalmente com meu filho, e mostrar para ele, que infelizmente, o mundo cor-de-rosa, que os pais pintaram para ele, não existe. Mostrar que ele não é a única criança agredida no mundo. Mostrar para ele, que sim, existem pessoas preconceituosas, e que ele sempre irá se deparar com elas por ai, mas que o preconceito delas é que feio, e que caráter, não se define pelo peso que você tem . Conversar para que ele possa se defender, não revidando as agressões, mas gritando, pedindo ajuda. Conversar muito. E, principalmente, que seus pais estão aqui, sempre, e que sempre estarão ao lado dele, prontos para defendê-lo daquilo que pior a sociedade produz.

Por último, para toda criança que sofre bulliyng, temos um bully, que tem pai e/ou mãe. Então observe os sinais, pois seu filho pode não ser o que sofre, mas o que agride. Mas, com uma boa educação e ajuda (até mesmo terapêutica, se for necessário), você pode mudar o destino de duas crianças... Pense nisso.

E deixo aqui o link de um vídeo, extremamente chocante, onde crianças mais velhas, assistem e incitam a agressão a uma menor: http://globotv.globo.com/rede-globo/sptv-1a-edicao/v/crianca-e-agredida-dentro-de-condominio-em-sao-bernardo-no-abc/2519514/

(Queria agradecer a Rogéria, a Fernanda Reali e a Claudia Pinto, que muito me ajudaram a enfrentar esse problema e deram dicas preciosas)

UPDATE:  Vamos falar sobre isso? Seu filho, você, ou alguém que você conheça sofreu/sofre com o bulliyng? Quer contar? Manda pra mim seu depoimento, pelo e-mail patricia.daltro@gmail.com - vou abrir o  blog para outros que também sofrem/sofreram. A ideia é abrir um debate sobre o tema e pensar coletivamente como proteger nossas famílias, principalmente nossos filhos, do bulliyng.


12 comentários:

Bia das Letras. Mestre em Literatura Portuguesa pela UFF em 2013. disse...

É, várias coisas são difíceis nessa situação, principalmente medir-se o que vai fazer, para não piorar o ambiente para o agredido, e a questão de que os pais do "agressor", provavelmente não estão criando esse filho direito, de modo que provavelmente continuarão a não fazer nada.

Bia das Letras. Mestre em Literatura Portuguesa pela UFF em 2013. disse...

Desejo também que a escola fique mais atenta, que é o mínimo que se espera.

Cláudia Pinto disse...

Paty, é difícil pra caramba esta situação. Já aconteceu com meu filho, e no dia que a escola falou pra mim, "seu filho está sofrendo bullying", (eu desconfiava, por isso que estava lá) fiquei menstruada ali na sala da coordenadora, era a segunda vez naquele mês. A história é muito longa.

Antes do problema ser resolvido ele pediu pra trocar de escola, vi uma escola nova pra ele sim, ele tem que estar bem na sala de aula, ele tem que gostar de ir para a escola.

Pois sempre digo pra ele: Não se acostume com coisa ruim, não se acomode com o que não te faz feliz.

Pedi pra ele uma semana pra resolver o problema, se depois disso ele quisesse sair eu tiraria, dei segurança pra ele.

Claro que ele poderia sofrer na outra escola também, mas na outra escola era uma possibilidade, na que ele estava já era uma realidade. Eu trocaria de escola numa boa.

Ele está na mesma escola até hoje. Isso aconteceu em 2010. As agressões acabaram, mas também meu filho foi excluído do "grupo" do recreio, mas mostrei pra ele que nós não podemos obrigar ninguém a ser nosso amigo.

Mas depois que isso veio à tona, que ele soube o que estava acontecendo com ele, ele se sentiu seguro, e toda vez que faziam algo com ele, ele recorria à coordenação. A escola passou segurança pra ele, mostrou que estava do seu lado.

Espero do fundo do meu coração, que tudo seja resolvido da melhor maneira possível para o seu filho.

beijos

Bel disse...

Nem sei o que dizer. Só que você não está só.
Eu também sofri bullying porque era "estranha" ( entenda: não filha de rico, magrela demais, evangélica, inteligente demais...) e tenho meus traumas até hoje. Mas acho que me resolvi bem, porque como professora tenho sido mesmo EDUCADORA e encarado de frente os casos de bullying mesmo na faculdade.
Meus filhos também sofreram. E dos professores, por um motivo mais idiota ainda: por serem filhos de uma colega. Dá pra imaginar??? Foi duro. Mas quando percebi que, para dar a eles a boa educação que achava que estava dando, eu mesma era o motivo deles serem agredidos... não contei conversa, mudei de escola, e os vi florescer, terem amigos, serem admirados pelos professores... valeu a solução!

Espero que vocês também consigam.

Beijo, amo vocês!!!

Fernanda Reali disse...

Muito angustiante! Chamei amigas que talvez conheçam histórias para compartilhar. Beijoooo

Telma Maciel disse...

Pat, é doloroso ver o filho da gente passando por isso! Sofia já passou. Resolvi rápido, com provas escritas, conversei com a coordenadora e falei q não aceitaria outro problema como esse. Nunca mais aconteceu.
Agora ela está em outra escola... o que aconteceu foi de uma coleguinha q não gostou da capa que fiz pra um caderno dela. A menina disse q tava feio. E eu perguntei pra Sofia se ela tinha gostado e expliquei q isso q era importante, q cada pessoa tem uma opinião diferente, mas q as pessoas tem q saber respeitar os outros.
É complicado, Pat... é doloroso... dá vontade de sair batendo em todo mundo q feriu nossa cria! Mas vc tem, sim, q conversar na escola e conversar tbm com os pais dessa criança. Peça para chamá-los e faça uma reunião, pq os pais dessa criança talvez não saibam e talvez não aprovem o que ele tem feito.
Fica bem, viu?!
Bjks

Lúcia Soares disse...

Patrícia, nem posso imaginar o que é passar por isso. Graças a Deus meus filhos sairam ilesos da escola. Acho que o mundo está muito diferente do que era, e o mais triste é que é para o pior.
Você e seu marido tomaram a decisão certa, que é a do diálogo, o tentar entender o que, à primeira vista, pode parecer inexplicável. Para mim é tão distante isso de crianças ferirem (moralmente) outras crianças, seja por causa do peso, da altura, da cor, da crença...Tudo me parece fora do real, é muita tristeza acompanhar casos como o do seu menino.
Meu neto, de 6 anos, está fora do peso, não é obeso, mas um tanto gordinho e, felizmente, não foi discriminado por isso.
Sinto muito pelo que o seu menino passou e desejo que ele esqueça o ocorrido, que não fiquem marcas em seu coração.
Beijo!

Alessandra disse...

Oi Patricia...
Tbm tenho histórias para te contar a respeito de minha filha. Depois com mais tempo nos falamos.
Beijos

Valérie Roberto disse...

Patrícia estou começando em um grupo de estudos sobre o Bullying então não tenho muito conhecimento para te passar. Mas posso te deixar uma opinião de mãe e faria o mesmo com meu filho.

Faria sim o B.O. porque ele não quer dizer processo, mas é uma maneira legal de vc provar o que vem acontecendo com seu filho e se voltar a acontecer, vc poderá acusar a escola.

Procuraria uma terapeuta para ele. Parece meio neurótico, mas ele tem que organizar o que passa com ele e o que ele pensa a respeito. A agressão foi o ponto alto do bullying, mas pela sua descrição isso acontece a mais tempo e interfere na autoimagem dele.

Sinceramente não sei se meu filho continuaria na mesma escola. Começar de novo em um lugar diferente poderia ajudá-lo a compreender que não é em todo lugar que existem idiotas e incapazes.

Me desculpe falar assim (a gente só de esbarra aqui na net), mas eu acho este assunto muiiiiito importante, perigoso e precisando ter um basta. Parece que quanto mais falamos de aceitar a diversidade, o diferente, mais as pessoas se tornam intolerantes!

boa sorte com seu pequeno e espero que tudo melhore

bjs

Afrodite disse...

Patrícia,
Desculpe o que vou te dizer mas vc ERROU!
Deveria ter ido adiante e dado parte na delegacia!Deveria ter tirado teu filho dessa escola e processado o MUNICÍPIO!
O meu filho passou pelo mesmo problema,mas ao invés de ser um corte surperficial,da última vez ele perdeu metade de um dente e pedaços de outros dois!
Não podemos deixar impunes aqueles que agridem e menos ainda os responsáveis pelos nossos filhos sairem impunes!Qd eles estão na escola a responsabilidade sobre eles é dos professores,direção...onde estavam que não cumpriram o dever?
Estou processando o Município do Rio,tanto civil qt criminalmente!
E anexei contra a escola um porcesso adminstrativo que possivelmente culminará na dispensa do professor que se ausentou da sala de aula no horário!
Dizer que seu filho será prejudicado se sair da escola,não é nada!Pior é seguir estudando com os algozes e professores que nada fizeram para protegê-lo!
Vá a delegacia,faça exames que eles solicitarem e procure a Defensoria!Faça quiexa no CRE da escola e fique em cima para que os verdadeiros culpados paguem!Impunidade só servirá para que amanhã outros passem pelo que seu filho passou!
Se precisar me procure que te conto o meu caso!
Bjo
Afrodite

Cris Guimarães disse...

Eu concordo com a Afrodite, acima. Todo tipo de violência deve ser denunciado e, sim, você deveria ter ido às últimas consequências, mesmo que isso significasse trocar seu filho de escola. Esse tipo de coisa não pode passar, não pode ficar impune. E, bem melhor para ele, é sair desse ambiente hostil.
Força nessa hora!

Miss Me disse...

Pat, estou no espectro de Aspergers e meu filho também. Por sorte somos "alto funcionamento", mas sofri e ainda sofro bullying. Meu filho também.
Quando criança quebrei alguns narizes e rachei beiços alheios. Meu filho também. Costumava funcionar bem até o ginásio. Depois desenvolvi uma atitude blasé e um tom irônico/sarcástico que costumava deixar os bullies sem resposta. Já meu filho ficou grande demais pra arriscarem mexer com ele.
No momento trabalho duramente o desapego ao meu ego e alimento a compaixão, por tudo e por todos. Sem nunca esquecer de ser inocente como a pomba e prudente como a serpente, Bjos! <3