31 de out de 2011

Vampiros - O Final

Alexander
Ele a vê através do vidro da janela. Madalena está sentada na beira da cama. Tem o olhar perdido. O corpo imóvel. De vez em quando, um tremor percorre-lhe o corpo. Parece tão frágil e desamparada.
- Vim buscar Madalena. - diz para o guarda.
- Foi você que pagou a fiança? - 
Ele afirma com a cabeça.
Madalena o fita, mas Alex não consegue enxergar o brilho de reconhecimento em seus olhos. Estão opacos e vazios. Sente que chegou tarde demais. Puxa-a pelas mãos, ela não oferece resistência, apenas segue em silêncio.
Eles agora estão no atelier dela. Um sentado frente ao outro. Ainda não emitiu um som sequer.
- Madalena... - ele a chama. - por favor, fale comigo...
Ela estremece. Até mesmo levanta os olhos em sua direção, mas depois volta à mesma expressão sem vida de antes. O olhar perdido em algum ponto distante.
Ajoelha aos pés dela. Encostando a cabeça em seu colo. Tão bela. Acaricia seu rosto e cabelos que caem em sua face delicada.
 - Desculpe-me... Desculpe-me... - chora. Uma culpa profunda em seu coração. ­ se eu pudesse voltar ao passado... você não sabe o quanto eu me arrependo... ainda lembro de quando te conheci. Não parecia ter mais de quinze anos. Estava vagando pelas ruas. Alguma coisa em você me chamou a atenção, não sei explicar.
Senti que você também era uma criatura amaldiçoada, os condenados a mais profunda solidão e às trevas... você estava confusa e eu a trouxe para mim. Eu a amei tanto, como eu não sabia ser capaz de amar. Você era como eu, embora humana. Eu não conseguia entender... então chegou aos meus ouvidos a estória de uma menina, por quem um ancestral se apaixonara, um demônio tão poderoso, quanto milenar, um vampiro como eu, mas mais forte que qualquer um de nossa raça. Ele havia se apegado a uma mortal e a colocado sob a sua proteção. Um dia ela fugira... eu soube na hora que a menina era você e que quando ele soubesse de seu paradeiro, a roubaria de mim. Mas não iria permitir... eu não podia... então fugi com você para o Brasil e te deixei na casa de um casal de mortais. Apaguei todas as suas lembranças e passado... construí em sua mente frágil de mortal uma estória de menina feliz, filha de amorosos pais.
- Mas ele descobriu tudo e com a ajuda do criado, matou seus falsos pais. Eu estava lá e vi quando ele revelou sua verdadeira face para você, criança, uma face de dor e loucura... eu entrei na sala, disposto a intervir... consegui matar o empregado dele... queria te proteger. Tirar você dali a qualquer custo... mas ele era mais forte do que eu...por uns instantes, achei que ele fosse me matar... mas ele não fez isso. Apenas gargalhou. Ainda sonho com aquele riso horroroso... ele apenas gargalhou e disse que não te levaria naquele momento, que eu poderia ter você, mas que um dia ele voltaria e tiraria sua alma.
Por uns momentos Alex revive o passado, a voz do demônio ecoando pela sala: “Ela é como eu... um dia você verá a besta surgir dentro dela... ela vai com você agora, mas irá voltar para mim. Por que ela é minha! Minha! Pobre idiota!!!”
Então ele sumira, deixando Alex sozinho ao lado de três cadáveres e uma menina em choque. O dia amanhecia e ele partira, o sol era seu pior inimigo, deixando para trás um legado de dor e lágrimas para a mulher que amava.
- Você não foi a julgamento por ser menor de idade e eu consegui abafar as investigações pagando propina para policiais, advogados e juízes. No final o pobre infeliz do serviçal levou a culpa do crime e tudo ficou por isso mesmo. Levei-te de volta para os Estados Unidos, sabendo que o germe da loucura crescia em suas entranhas, e eu nada podia fazer! Um dia, você quis voltar, eu sabia que era o demônio que te chamava, e minha covardia impediu-me de reclamar-te para mim. Deixei que retornasse, mesmo sabendo que te perderia...
- Já não me ouves mais... vejo em teus olhos que a fera já possui tua alma, mas eu ficarei ao teu lado, ao teu lado minha amada, até a eternidade nos reclamar...
Ele pára de falar. Cansado e abatido. Lágrimas escorrem em seu rosto, sangue. Madalena o fita. Um brilho no fundo dos olhos. Passa a mão sobre os cabelos do homem ajoelhado aos seus pés. Alguma coisa se rompe em definitivo em sua alma. O mundo torna-se distante. A dor penetra por todos os poros. Ela vê o demônio estendendo-lhe os braços no fim do corredor. Ela caminha em sua direção...

Capítulo V
Noites no Abismo
Doutor Pedro
O doutor passa a mão pelo rosto. Madalena, ou melhor, Eleanora, uma jovem artista, linda. Enlouquecera após o assassinato dos pais... se fosse simples assim. Ainda se lembra do caso. Ninguém nunca fora capaz de explicar como matara a mulher e o jovem, tampouco a ausência do sangue nos corpos das vítimas. A última pessoa a ouvir sua voz fora o delegado. Segundo ele, ela confessará os crimes e se calara, para sempre... 

Mas havia coisas que ele não consegue entender, ou melhor, não quer entender, sua sanidade assim exigia: O vulto no quarto de Madalena, isso ele não quer entender. A sombra que surge todo o entardecer e passa a noite ao lado dela... ou as crises que às vezes ela tem, quando  presas extremamente pontiagudas crescem na lateral de sua boca. Ou o fato dela continuar tão bela e jovem como quando chegara ali, o tempo não a atingindo... Em breve ele irá se aposentar... não vale a pena tentar conhecer o que não quer ser conhecido, o melhor é fingir que não existem, mesmo sabendo que ele estão lá, às vezes do nosso lado.

5 comentários:

Caroll disse...

Excelente conto,Patrícia!!
Adorei!!
Muito bom mesmo!
Digno de uma noite do dia 31!
Abraços

Telma Maciel disse...

Uia! Ansiedade pura mesmo, né? Tenso!
Adorei!!!!

Cissa Branco disse...

Patricia,

Divino, adorei, fiquei imaginando as tomadas, rs.
Fiquei fã da Madalena, que dó, que dó, que dó.
Quero outros, rs.
Beijos e ótima semana

Maya disse...

Arrepiou-me, Patrícia!!! Amei...
Muito bem escrito, que dá sede de querer mais!!!

Beijos!

Fanzine Episódio Cultural disse...

O PRIMEIRO CONTATO
Certa vez, na ânsia de concluir um trabalho escolar, cercado de publicações dos mais variados autores e temas, e sem saber por onde começar despertei-me com um clique da minha esferográfica.
Eis que, como um “Deja Vu”, deparei-me com um antigo livro de contos em péssimas condições. O papel amarelado pelo tempo, perfurado por traças, empoeirado e suas páginas mal cheirosas.

A tinta usada em sua impressão ainda mantinha um bom contraste, o que o tornava legível.

Então, no volver furtivo e detalhado de cada página, eu descobri algo novo: textos envolventes com assuntos, embora de séculos atrás, tão atuais e familiares que passavam não só a mim, mas a quem quer que os lesse (leiam) uma profunda intimidade com o autor.

Agora eu já podia empunhar aquela, cujo clique não mais soava irritante, mas frugal.

Tudo era simples, evidente e claro. Eu não precisava mais daquela pilha de publicações, pois tudo estava ali, em cada cor, som, ou lembrança. Daquela ponta esferográfica, as palavras fluíram com naturalidade e deitavam em cada pauta com a suavidade de uma pétala que pousava sobre a relva.

Eu compunha com mais idéias, indeterminado, mais livre. Não havia motivo para se preocupar com “Lapsus Linguae”... Sim era minha primeira crônica. Agora eu sabia que poderia escrever sobre qualquer coisa.

*Cassius Barra Mansa é cronista machadense

Lapus Linguae = erros de linguagem
ATRAÇÃO DOS MOLEKES

(pagode com malícia mineira)

Influenciados pelo, Exalta Samba, Revelação, o grupo se apresentou pela primeira vez em 2006 na Praça Antônio Carlos (Machado-MG), durante as comemorações do 7 de setembro.. No mesmo mês, eles abriram o show do Face Racial no salão da Dismabe, evento organizado pelo DJ Brown. O próximo passo será a gravação do primeiro CD com 12 músicas, entre elas (É hora de curti) Contatos: João ou Diogo (35) 3295-4031 (Machado-MG).

Blog: http://atracaodosmolekes.blogspot.com/