26 de ago de 2010

Verdades Imperfeitas

Quando acabou de falar e o silêncio se interpôs entre eles, sentiu pela primeira vez uma estranha sensação de alivio. Era como se todo o peso que trazia no peito todos aqueles anos, finalmente tivesse se dissipado. Um peso tão repleto de medo e culpa, que agora já não existia mais.

E, bem, deles, ele não esperava nada. Também era uma sensação nova. Não saber o que esperar. Mas, o silêncio libertador inicial, deu lugar a outro, tão carregado de negações, que ali ele soube, que não haveria de ser diferente para ele.

Foi o pai que o mandou embora. Ele, como fazia todas as vezes, quando se indispunha com figura paterna, olhou para mãe, esperando, mais uma vez, que ela saísse em sua defesa.

Ela chorava. Um choro calado e tão profundo, como se alguém tivesse morrido. E, no final, não era sua morte o que ela chorava?

Não esperou a segunda ordem paterna.

- Seu “amigo” está te esperando? – A mãe perguntou, antes que ele abrisse a porta.

Nesses anos todos, o que mais doía sempre, era essa aspa na palavra amigo. Todas as vezes, tinha a sensação de que o interlocutor, faria com os dedinhos, uma aspa fictícia, o símbolo do preconceito, embutido em um simples gesto.

- Está. Meu – virou-se para eles e não resistiu,  desenhou com os dedos uma aspa imaginária – amigo, está lá fora.

Ainda esperou, qualquer coisa que não aconteceu, e partiu.

Entrou em silêncio no carro,

- Já vi que não foi nada bem.
- Alguma vez é? Sabe, quando tinha uns nove anos, eu jogava futebol. Jogava mesmo, fazia parte do time da escola e cheguei a participar de um intercolegial. E teve um jogo, final de campeonato.  Acho que foi a primeira vez que meu pai foi em jogo meu.

De repente a bola estava nos meus pés e eu sai igual louco, driblei, sei lá, uns quatro meninos e então, era só eu, a bola e o goleiro.  chutei e ... errei.  O engraçado, que até hoje essa lembrança vem em câmera lenta, exatamente como naquele momento. Lembro do grito de gooool, se dissolvendo na garganta coletiva dos que assistiam o jogo. E, principalmene, lembro dos meus pais e do olhar que encontrei. Um olhar diz muita coisa, não é? E aquele olhar disse tanto para mim, naquele momento...

- E...?
- Foi exatamente o olhar de hoje. Exatamente... E, sabe o que é mais trágico, nisso tudo? Aquele jogo, já estava perdido. Nós estávamos perdendo de 3 a 0 e faltava o quê? Uns 5 minutos pro final do tempo. Não importava, de verdade, se eu fizesse ou não aquele gol...
- Sabe do que você precisa? – perguntou Paulo, pegando uma garrafa térmica no fundo do carro. – Disso aqui.
- O que é isso?
- Chocolate quente... Sabe, querido, eu contei pros meus pais, quando completei 17 anos.  E, bem, você sabe como é... Mas, naquele dia, quando cruzei a porta, e fazia um frio do cão. Sabe do que senti mais falta? Do chocolate quente, que minha mãe trazia, todas as vezes que eu ficava triste. Durante todos aqueles anos, em que ela se recusou a me aceitar, todas as vezes em que eu ia visitá-los e saia me sentindo um merda... Foi disso aqui que senti falta.... -  Termina a frase quase num sussurro.

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Update: Texto inspirado neste post aqui ó: Luto e Negação da querida @LilahLeitora

8 comentários:

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

Texto forte, mas bonito. Qtas vezes esse tipo de cena não se repete em tantos lares... um pouquinho de tolerância e aceitação que poderiam tornar histórias tão mais felizes...

como sempre, um post perfeito. Esse, em especial, tocou pela emoção.
bom dia

Lilah disse...

Paty,

Forte e muito bem escrito como sempre. Esse "amigo" com aspas de dedinho é um símbolo enorme. É quase como se fizessem as aspas para limpar os dedos de algo sujo.
Posso linkar no meu, posso, posso...hein?

Fernanda Reali disse...

Sensível, mas doce e forte como um bom chocolate quente. Tuas palavras reanimam a gente!

Denise do Egito disse...

Que legal essa história. Fico tão triste por essas coisas ainda acontecerem. Pessoas feridas, que não aceitam a opção das outras, que não apóiam. Pior é que os filhos, penso eu, nunca conseguem ser 100% felizes sem o apóio dos pais. É possível, mas é um duro trabalho de libertação.
Deixo um abraço para todos !

Maite Guadagnoli disse...

Ola Patricia lindo texto, um bocadinho triste, mas maravilhoso, hj passei pra te falar que ja coloquei seu nome no post do diario da gordiha viu, me desculpe pela falha é que recebi por email e não tinha autoria, mas juro não esquecer mais, e Parabens pelo texto é espetacular, bjos

Maite Guadagnoli disse...

Ola Patricia lindo texto, um bocadinho triste, mas maravilhoso, hj passei pra te falar que ja coloquei seu nome no post do diario da gordiha viu, me desculpe pela falha é que recebi por email e não tinha autoria, mas juro não esquecer mais, e Parabens pelo texto é espetacular, bjos

Matheus Farizatto disse...

Tenho certeza que após esse chocolate quente, os pais passarão, aos pucos, a serem amigos do "amigo". E com naturalidade, pais e filho viverão bem, felizes, completos, verdadeiros, em família. É só uma questão de tempo.

Adorei, Patty!
E um ótimo fim de semana.
beijão.

Anônimo disse...

Essa carioca, essa canceriana daí, emocionou essa canceriana mineirinha daqui... Fiquei pensando que num primeiro momento tive dificuldade para oferecer um chocolate quente ao meu filho que, aos 18 anos, me fez confidente do seu maior segredo: "mãe, eu sou gay!"
Posso dizer que, agora, depois de muitos porquês, muitas buscas de culpados, descobri que tenho o maior orgulho da coragem do meu filho, de se mostrar diferente do que a sociedade espera, conservando-se íntegro, gente.
Continuarei a oferecer um chocolate quente a ele, e ele sabe disso...
Parabéns pela sensibilidade e obrigada, Patty.
Abraço carinhoso,
Silvana - não anônima [risos], mas é que não preencho os requisitos das outras opções. (silmac75@gmail.com)