14 de out de 2011

Reality (sem) Show:


- Se eu fosse branco a senhora me adotava? A mulher para. Sobressaltada. Pingo de gente à sua frente. Semi-trajado com uma bermuda vermelha. Magro. Cabelinho pixaim. A primeira reação é puxar a bolsa mais para frente. Junto do corpo. Assalto? Depois acha ridícula a sua reação. Uma criança. Apenas uma criança.

- O que você falou? - não consegue evitar o tom ríspido na voz. Ainda insegura. O olhar em torno. Ninguém a vê ali, naquela situação de risco? Resolvida, apressa o passo. O miúdo acompanha.

- Ei, tia, responde! Se eu fosse branco a senhora me adotaria?

Que situação. Se não bastasse o aborrecimento no trabalho. Agora isso. Um pivete chato, grudado no seu calcanhar.

- Menino, tenho tempo para conversa, não! Que idéia! Quer dinheiro? Toma, aqui tem uns trocados. – Empurra desajeitada, umas duas notas de um real. A mãozinha se abre, acostumada a receber esmolas. Então ele puxa. Deixando as notas caírem no chão. - Não pedi dinheiro, não tia!

- Olha o que você fez! Se não é dinheiro que você quer, me deixa em paz! Puxa a bolsa para mais perto ainda do corpo e segue. Passo firme. Dessa vez menino não a acompanha. Olha as notas no chão. Olha a mulher que se vai. Pega o dinheiro, amassa de qualquer jeito, põe no bolso da calça.

Volta para a praça, onde os outros moleques o esperam. É recebido com uma salva de vaias. Vai pro seu canto. Encolhido debaixo de uma árvore.

- Eu falei pra tu num i lá. - É uma menina. Senta ao seu lado. - Mulhé granfina, Toco. E você com essa pergunta douda. Se adotado! Esquece toco, teu lugar é aqui. Na rua, com a gente.
Ele a olha. Coração pequeno. Lágrimas brotando nos olhos miúdos.

- Sabe Nina, tem hora que num queria ser gente não. Queria ser cachorro.

- Que coisa doida Toco, por que isso?

- Eu aposto que se fosse cachorro, ela me adotava.

7 comentários:

Marcelo Daltro disse...

Fechando a Semana da Criança, este é um dos textos que eu mais gosto, forte, verdadeiro e super realista. Um texto para refletirmos.

Beth Matos disse...

Nossa, que história, heim???
Essa é nossa triste realidade...
Beijos

Rosa Branca disse...

Paty, um grande abraço, post maravilhoso esse!

Joana disse...

Paty
Sou leitora assídua de seus textos e sempre gosto muito do que leio. Mas esse de hoje, por eu gostar muito de cachorro e animais, foi meio que um chute na boca do estômago, do meu estômago. Confesso que chorei. Estou pensando em tantas coisas... Será que eu me incluo na crítica da musica: "troque seu cachorro por uma criança pobre?" Não dou luxo para cachorro ou gatos, dou carinho, conforto e o necessário, veterinário só quando precisa e nada de roupinhas ou coisinhas assim, pois me acharia meio ridícula, mesmo assim esse texto mexeu demais comigo.
Belo momento de inspiração.
Beijinhos

Cissa Branco disse...

Patrícia,

Que coisa, ainda emocionada com o texto, perfeito, realmente um retrato do que vivemos.
Grandes beijos, parabéns e ótimo final de semana

Casa das Bonecas de Pano de Ipiabas disse...

Olá amiga quando posso venho ler suas históris sempre tão bacanas dá gosto de vir aqui bjs Leila

Pr Paulo Barreiros disse...

Olá Jô!
Primeiro, obrigado por seguir o meu blog. Amei o seu texto. Retrata a realidade da vida e da sociedade humana.
Infelizmente, pelo avanço da crueldade, a insensibilidade às necessidades do próximo tornou-se um caso lamentável. Pois, a hipocrisia, o egoismo e a insensatez ocuparam o primeiro lugar no coração humano.

Parabéns pelo seu texto.

Um grande abraço,

Pr Paulo.