27 de out de 2011

Vampiros - Continuação


2ª Noite
Madalena acorda. Está deitada em uma cama que não é a sua. Percorre com os olhos o quarto, não é o seu. Uma mulher está em pé na beira da cama. Tem nas mãos uma prancheta. Hospital! Como foi que chegou ali? Tenta falar, mas da sua garganta soa um estranho sibilar.
- Então, acordou? - a mulher pergunta, aproximando-se.
- Madalena afirma com a cabeça. A mulher coloca um termômetro em sua boca.
- Esta dormindo há três dias.
 Três dias? O que estava acontecendo? - Tenta se sentar. Mas a mulher a empurra de volta para a cama.
- Não é recomendável esforço.Você está muito fraca. Chegou aqui praticamente desidratada.
Enquanto fala, a mulher (enfermeira?) lhe dá um liquido de cor esquisita para beber. Depois a ampara com a mão e coloca um copo d’água em seus lábios. A água refresca-lhe a boca. Quer falar com a mulher, mas esta já está de pé na porta.
Sente seu corpo gradativamente se anestesiar. Não quer dormir. Luta bravamente, mas seus olhos pesam. Ao longe, ouve alguém chamando seu nome.
Está novamente no corredor. As mãos a empurrando gentilmente para frente. A escuridão a envolve de novo. Ouve sussurros, sente o visgo no chão. Quer gritar, mas não consegue. Sua voz é  um fio que morre na traquéia. Caminha às cegas, deixando-se conduzir pelas mãos. Sabe o que a espera no fim do corredor... mas está fraca e tonta. O vento chega com seu odor fétido, o ar fica denso. Agora não vê mais descampado. Está sobre um monte. Vê as luzes de alguma cidade lá embaixo. Aos poucos seus olhos se acostuma a escuridão e ela pode ver vultos, milhares deles que erguem as mãos e clamam por ajuda. Quando olha para seus pés, vê que o monte é feito de ossos, muitos e muitos, o sangue escorrendo entre eles.
O homem chega em silêncio por trás. Ela só o percebe, quando ele a toca nos ombros.
         - Vê? Isso tudo será seu.
Ela vira e o encara. Os olhos dele são como breu. Sente-se sugada para dentro deles. O mal. Vê homens matando outros homens. Mulheres com facas na mão e sede de sangue nos olhos. Crianças de olhares angelicais que gargalham sobre corpos inanimados... por todo o lado que olhe só vê morte. Dor. Violência. Lágrimas...
Ele a segura por um dos braços. Acaricia lugar onde antes ele mordera. Desce seus lábios novamente sobre seu antebraço. De novo crava os dentes. Dessa vez ela não sente dor. Um estranho formigamento apenas. O sangue quente escorre por sobre a sua pele. Ele levanta o rosto. As presas manchadas de sangue.
- Só mais uma noite Madalena e você será minha. Para sempre...
Ela grita. Sua voz ecoando no quarto desconhecido. Uma luz se acende. Vê a silhueta de uma mulher.
- Você está bem? - a enfermeira pergunta, tirando sua temperatura.
- Água, por favor...
A mulher encosta um copo em seus lábios ressecados. Uma dor suave percorre sua espinha.
- Beba devagar, seus lábios estão muitos feridos.
- Por favor... onde estou?
- Em um hospital.
- Como vim para aqui?
- Estranho... você chegou sozinha. Tinha muita febre. Estava desidratada. Não é bom ficar falando. Tente dormir.
- Não... ele vai voltar!
- Ele?! Ora, você teve um pesadelo. Acho melhor lhe dar um calmante.
- Não! Por favor, não me deixe dormir!!!!
A mulher injeta alguma coisa no frasco de soro preso em seu braço. O sono chega suavemente. Seu corpo sendo tragado por uma agradável sensação de paz.

3ª Noite
Ela acorda. Um silêncio absoluto fere seus tímpanos. Sua respiração ofegante é o único som que chega aos seus ouvidos. Um calor invade seu corpo, joga os lençóis para fora e tenta levantar-se. Sente-se muito fraca, o quarto rodando ao seu redor. Mesmo assim, levanta-se, apoiando na cama.
Caminha pelo quarto escuro, tateando até encontrar a porta. Abre-a. O corredor do hospital é longo e mal iluminado. Chama por alguém. O silêncio lhe responde. Ninguém. Caminha, escorando-se pelas paredes. Vira para a direita na direção do balcão da recepção. Os aparelhos ligados lhe transmitem uma  sensação de ausência temporária. Um pouco mais à frente, uma porta aberta, chama a sua atenção.
         - Enfermeira... - Madalena chama. No fundo do quarto, uma mulher está de costas, observando a janela.
Aparentemente esta não a ouve. Madalena entra no quarto, tornado a chamar a mulher. Ouve o barulho da porta fechando atrás de si. Um arrepio percorre sua espinha.
 - Enfermeira? - chama de novo, tentando controlar o pânico que se insinua em sua mente.
- Madalena?...
Então o quarto subitamente escurece, ou será uma vertigem? Madalena sente o chão fugindo de seus pés. Caminha vagarosamente para trás, o olhar preso na mulher, que lentamente se vira.
Uma onda de pavor a invade. Sente o grito se avolumando na garganta. O rosto que a fita, um rosto estranhamente conhecido, tem com corte profundo que vai da têmpora direita, até o maxilar. Um ferimento semelhante no abdome, o sangue escorrendo dos cortes. O braço, que a mulher agora estende em sua direção, está coberto de lacerações diversas.
- Mamãe... - Madalena sussurra. Caminhando na direção da mulher. Sua mãe... ela a abraça, chorando em seus braços. Desajeitadamente, ela tenta estancar o sangue.
- Eu sabia que você não iria nos abandonar... - murmura a mãe. - seu pai... seu pai está lá dentro com ele, você precisa salvá-lo.
- Eu não posso... eu não posso...
Sua mãe a fita, um olhar de profundo desapontamento e dor. Ela sente o coração se apertar. Sabe o que irá ver, se entrar na sala onde está seu pai... o olhar que a mãe continua lançando em sua direção faz seu corpo estremecer. Reúne então o máximo de coragem que possui, e caminha na direção da porta. Com um gesto decidido, torce a maçaneta. A porta se abre lentamente, silenciosamente. Ela entra, não ela, mas uma adolescente, não mais de quinze anos. Veste uma camisola de algodão. Sua mente invadida por lembranças que ela se esforçara por enterrar o mais profundamente possível: sua mãe está caída em uma estranha posição sobre o azulejo, uma poça de sangue escorre em direção ao ralo. Mais à frente, ela vê o pai. Sobre ele, um homem. A criatura de seus pesadelos. Ela realmente o conhecia. Como pudera se esquecer?- pensa, recriminando-se. Como?
O homem a fita. Ela corre de volta à porta. Tenta abri-la, a maçaneta escorregando nas suas mãos molhadas de suor. Ouve os passos dele se aproximando. Esmurra a porta agora, grita por socorro. A sombra do homem projeta-se sobre ela. Quando a segura, com apenas uma das mãos, ela grita e esperneia, debatendo-se desesperadamente.
Madalena pode ver o rosto do homem, pode ver as presas salientes no canto da boca. Sua lógica grita-lhe a impossibilidade da existência de semelhante ser, mas os dentes rasgando-lhe a pele fina do pescoço é bastante real.
Sua mente gira em um turbilhão de sensações e terror. Fragmentos de razão ainda insistem em manifestar-se. Mas o homem a suga, numa velocidade aterrorizante... a realidade, tal como um dia ela ousou acreditar, é um porto longe, muito longe...
Hospital
Já é dia agora. A luz penetra por entre as frestas da persiana. Madalena acorda. Sente-se um pouco melhor. Com algum esforço consegue se sentar na cama. A porta do quarto se abre e a silhueta de um homem destaca-se.
- Que bom que acordou.  - o homem se aproxima, é um senhor de meia-idade, com longos cabelos brancos presos em um rabo de cavalo. - e então? Como estamos?
- O que aconteceu? - ela pergunta. Já não sabe mais se este é apenas um pesadelo ou não. A realidade agora é um fardo difícil de suportar.
O médico senta-se em uma cadeira na beira da cama. Anota algo no prontuário.
- Você estava com uma virose um pouco mais violenta do que as habituais. Ficou uma semana com uma febre bastante alta, intercalando fases de delírio e consciência. Mas, ao que parece, já está melhor. Quero recomendar alguns exames.
Tem alguma coisa estranha no seu sangue. Não posso dizer se é sério. Somente depois dos exames feitos, conversaremos melhor. Certo?
Madalena afirma com a cabeça. O pesadelo acabara. Os pés finalmente tocaram o chão.

3 comentários:

Adelaide Araçai disse...

Adoro contos de vampiros, creio que essa tal imortalidade me seduza mais do que posso compreender, sou aficcionada na eternidade das coisas. Estou adorando acompanhar essa semana halloween.

Muita Luz e Paz!
Abraços

Telma Maciel disse...

Tá bom esse conto, hein? Eu tô aqui, toda tensa com a historia de hoje! Cada dia melhor, mais suspense...

Bjs

Cissa Branco disse...

Patrícia,

Esse negócio de suspense em doses homeopáticas está me deixando angustiada. Quero o desfecho, rs.
Beijos e parabéns, está ótimo!