1 de ago de 2010

Uma Receita Feita de Lembranças

Pois hoje eu resolvi mandar a dieta pra casa do cara...mba e fui para cozinha! Almoço fiz lasanha com tudo que tinha direito (tá, disfarcei colocando berinjela no molho)  e após essa orgia, quis, é claro, arrematar com chave de ouro, com  uma sobremesa digna do almoço.

Mas, numa casa em contenção financeira e em dieta, claaaro, que não tinha nada para fazer um doce daqueles de enfiar o pé-na-jaca, ou melhor, eu achava que não, pois catando aqui e ali na net, me deparei com o blog Receitinhas e Frescurinhas, e uma receita de doce de leite com leite em pó, açúcar e margarina, ingredientes que tinha em casa.  Catei a receita, diminui proporções, porque sabe como é, menos é mais...
Então, fui lá e misturei numa panela : 2 xícaras de açúcar, 1 xícara de leite e 1 xícara de água, bota no fogo e  mexa sem parar durante 20 minutos.

Ai, o bicho pegou, 20 minutos com a barriga no fogão, parada, como assim? Eu, ultimamente, não paro, e cada minutinho é um tempo precioso... Mas, a receita exigia, e eu fiquei. E de repente, veio a lembrança da Iaiá, minha bisavó. Há tempos não lembrava dela de maneira tão intensa. Era assim que lembrava dela, pequenina, encostada no fogão de lenha, mexendo o doce de leite no tacho. Ela fazia com o leite tirado da vaca, que o filho trazia, numa vasilha de cobre, tão pesada, que ela se curvava toda, para derramar o leite na panela. Jogava o açúcar, e mexia, mexia, por minutos infindáveis, e eu ficava ali, pelo menos uma vez a cada 15 dias, sentada no banco comprido daquela cozinha enorme, comendo bolo de fubá e ansiando pelo doce maravilhoso que ela estava fazendo.

Lembro do cheiro inundando tudo, da voz determinada, a autoridade residia ali, naquela mulher pequena (engraçado, que mesmo quando criança, onde o mundo parece tão gigantesco, Iaiá era um mulher pequenina aos meus olhos), mas de um força e ditados descomunais. 

Nascida durante o período da escravidão, mandava a minha mãe de pele morena, tomar banho de leite, para ficar clara e a mim, alisar a ferro os cabelos crespos... mas, no entanto, dona de uma generosidade e doçura impressionante. Criou sozinha os 11 filhos, o marido morrera cedo, ainda com os filhos pequenos. Administrava a casa, o sítio, a família, com um rigor militar. 

Umas das mais recentes lembranças, a última dela ainda ativa e consciente, após um tombo, onde por pouco não fraturara o braço, os filhos e netos discutiam na sala, quem iria ficar com ela.  No auge da discussão, Iaiá se levanta, pega minha mão e ordena, vem menina. Eu a segui até a cozinha, ajudei com o leite, não mais tirado da vaca, agora comprado no mercadinho próximo, o açúcar e a manteiga, coloquei tudo ao seu alcance e me sentei no meu lugar de sempre, onde a observei misturando tudo e indo ao fogo, não mais o antigo fogão de lenha, mas um moderno fogão quatro bocas que ganhara de um dos filhos, tão curvada, tão velhinha no auge dos seus 90 anos. E enquanto ela mexia o doce, a ouvia resmungar, que não iria embora nada, que não era criança, que era absurdo quererem tirar ela da casa que era dela, dela! 

Não, ela não falava comigo, apenas resmungava sozinha, revoltada demais com todo aquele absurdo. Achei que chorava, nunca tive a certeza. Iaiá nunca demonstrara fraqueza e chorar era fraqueza para ela. Terminado o tempo, despejou tudo no pote e finalmente me enxergou. Eles não sabem que eu estou viva, menina?

Quando a vi de novo, em Campos, na casa de uma das filhas, para onde fora levada depois de mais um tombo, onde fratura a bacia. Estava fazendo 102 anos. Presa numa cama, mas com os olhos mais lúcidos que nunca, comemorou com os filhos, netos e bisnetos seu último aniversário. 

Aquele foi seu último ano de vida na terra, mas a lembrança dela, sempre me invade ao comer doce de leite. E hoje, ali, mexendo o doce na panela, naqueles infindáveis 20 minutos, senti sua presença de uma maneira tão intensa... 

O doce espera o tempo necessário para esfriar, não sei se vai ficar bom, ou melhor, independente de ficar bom ou não, esse vai ser o melhor doce de leite que comi ultimamente, por que vem recheado de lembranças...

14 comentários:

Bel disse...

Adorei a receita e mais ainda as lembranças.
Mas me diz, já comeram o doce? Ficou bom???

Bjooo

Fernanda Reali disse...

Divino. Teu texto desceu macio como um bom doce de leite.

Elis (Coisas de Lily) disse...

Um texto docinho, docinho...
Muito gostoso. E nem precisei prová-lo.
:-*

Patrícia Lerbarch disse...

Amei, mais as lembranças q o doce. Seja feliz, pq é tudo o q importa.

analice disse...

acredito que ser feliz é o que importa, claro que precisamos mudar algumas coisas,,, trabalhar outras... .nao adianta se matar pra tal.. pois deus nao quer sacrificios
um abraço e boa semana

calma que estou com pressa disse...

oi Patricia- que bela texto e bela mensagem- porque será ue estas doeces lembranças da infância por mais simples que sejam ficam como um doce de leite-
bjs

Carmen Mesquita disse...

Parabéns pelo texto. Amei!

É tão gostoso quando uma simples ação do nosso dia se transforma em algo tão espetacular.

Um beijo
Carmen
http://naoapaguealousa.blogspot.com/

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

Eu li e reli esse texto, várias vezes... de tanto que gostei.

A emoção que o texto traz é linda, vc me fez também lembrar da minha avó, a cozinha dela...a comida gostosa, o amor que ela tinha pela gente.
fiquei muito sentido com a parte que vc conta da discussão. Eu imagino o que deve ter sentido sua avó, após criar uma família com sacrifício, ter que ouvir esse tipo de conversa. Como se ela fosse um trapo velho que pode ser dispensado após o uso.

Parte do meu trabalho aqui é com idosos (treino mental e corporal para amenizar a senilidade). Muitos tem idade próxima da que sua avó se despediu do mundo...
Ouço as histórias sofridas que enfrentaram... e é impossível não ter carinho por eles. Sua avó deve ter sido um doce... tão doce e bom como os doces que ela fazia...

Furou o regime? que bom, vc nutriu sua alma e coração.
bjs boa semana

analice disse...

é sempre bom relembrar, eu muitas vezes me pego sentindo algum cheiro bom, uma imagem, uma conversa, uma foto... sao as referencias com a nossa existencia...

Pamela disse...

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Bia das Letras. Pós-graduanda de Literatura Portuguesa na UERJ e na UFF, 2010. disse...

Oi, querida. Acho fantástico essas lembranças que ficam da vida. Não tenho boas assim. Me parece que hoje as pessoas não cuida tão de perto dos seus e esse tipo de proximidade está fazendo falta.
Quanto a mim, o que me cabe é criar boas memórias para os meus filhos. Curiosamente escolhi fazer isso com doce: o pudinho...
Bejo, lindo o seu blog.

calma que estou com pressa disse...

oi! Patricia obrigadão por participr la do sorteio mineirim de casalzim mineirim de tiradentes -
boa sorte
estava namorando tua loja também - ai jzuis

bjs

Beta disse...

Oi linda.
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Elaine Gaspareto disse...

Patrícia,
Posso falar?
Pára tudo e vai começar um livro de crônicas agora!
O meu exemplar eu quero autografado tá?
Vai, menina, anda logo começar esse livro!