21 de jun de 2013

#PROTESTOMATERNO

Atenção, precisa ter olhos firmes
Pra este sol, para esta escuridão

Fomos 1,2 milhão nas ruas ontem, segundo dados oficiais. As fotos no entanto, mostram mais, muito mais do que a mídia nos apresenta. Alias, acho que as fotos e relatos das redes sociais e de pessoas que estiveram lá, nos mostram mais, muito mais mesmo, do que o discurso redondinho que a mídia vem formatando ao longo desses 10 dias de mobilização nacional.

Aliais, é interessante ver como, diferente dos nossos políticos, que ainda se mostram estarrecidos e sem saber como lidar com essa turma que está nas ruas, o nosso 4º poder, não só já traçou perfil, identificou pontos fracos e gradativamente, vem enquadrando, um movimento que nasceu para não ser enquadrado. Se no inicio, eram os 20 centavos (que nunca foram), agora já se sussurram nas alcovas (#beijosChico), rumores de Fora Governo. 

E um movimento que nasceu sem líderes, de parto natural, concebido e gestado num ambiente de insatisfação e gritos surdos, de repente, começa a ser "adotado" por interesses tão espúrios, como os que o próprio movimento combate.

Atenção para o refrão
É preciso estar atento e forte
Não temos tempo de temer a morte

Nesse perfil, já traçado, somos subdivididos em grupos. Temos os vândalos, que quebram tudo de maneira indiscriminada, numa raiva latente e que não é para ser entendida (ou atendida), mas reprimida. Sempre.
E temos os manifestantes, as figuras de branco, que levam cartazes genéricos, que cantam e dançam a mudança, são apartidários e apolíticos (sem nem entender bem o que isso significa), que tem suas palavras de ordem, contra os partidos e as instituições sociais, serem sublinhadas e reforçadas na mídia, e nem se perguntam porquê. As bandeiras são muitas, o foco pouco. E, é exatamente a ausência deste, que permite aos primeiros crescerem e darem a tônica dos movimentos. Grandes manifestações festivas no inicio e turbulentas no final.

Atenção para a estrofe e pro refrão
Pro palavrão, para a palavra de ordem
Atenção para o samba exaltação

Mas, afinal, o que queremos? A triste realidade é que nas últimas décadas, entre política e sociedade foi se criando um afastamento, que em 2013 tem seu ápice. Nosso sistema representacional seria, num precário exemplo, como se nós donos da casa, contratássemos funcionários para administrá-la. Logo, como em toda relação patrão/empregado, cabe ao primeiro dizer o que quer e como quer, e o segundo providenciar o serviço da melhor maneira possível. Ao primeiro cabe fiscalizar o segundo para ver se o serviço está sendo feito de maneira correta, intervindo em caso contrário.

Acontece, que em algum momento essa lógica se inverteu, e o que deveria representar passou a ignorar aqueles que o colocaram ali. Hoje, o discurso político se perde entre si. Surdos para os que gritam do lado de fora. Mesmo nas eleições, há uma surdez seletiva. Muitas promessas, que são facilmente esquecidas no momento da posse, ou devido a acordos partidários, que não levam em conta os anseios dos seus eleitores, ou devido a corrupção, mal que não se restringe ao parlamento, tampouco aos políticos, mas é uma ferrugem que vem corroendo os alicerces de. na sociedade brasileira.

E a gente vem tentando ser ouvido, não é de agora: gritamos quando vimos políticos corruptos não serem presos, mesmo após julgados e condenados. Gritamos, quando vimos um político oportunista assumir a presidência do Senado. Gritamos quando percebemos que os eventos esportivos a serem feitos no nosso país, servem apenas para maquiar o país para o mundo, garantem uma polpuda caixa2 para muitos políticos e dirigentes esportivos e para isso, desviam recursos da educação, saúde, habitação etc

Continuamos gritando quando um homofóbico, racista e misógino, chamado Marcos (in)Felicano assumiu a Comissão de Direitos Humanos. E, como o grito insistia em não ser ouvido, fomos pra rua, quando aumentaram as passagens. Porque mesmo 20 centavos, passa a ser tudo, quando não se tem mais nada.

A
Atenção
Tudo é perigoso
Tudo é divino maravilhoso

E, o que vemos nas ruas, é exatamente isso, gritos tantos que destoam, mas se unem no compasso dos passos. Ou pelo menos se uniam. Pois de repente, mais forte do que exigir mudanças estruturais, fica o anti-partidarismos - não, eu não errei o termo, apartidários, são todos os que não tem partidos, mas aqueles que exigem que bandeiras sejam retiradas e militantes partidários sejam expulsos da passeata, (ignorando, que muitos deles, foram os que abriram trilhas para esses que estão na rua hoje), são anti-partidários. 

Não é a política que é ruim. Pois afinal de contas, o homem é um ser político. O errado é não cobrarmos desses que foram eleitos de maneira democrática, aquilo que foi acordado durante o processo eleitoral. É dizermos em tom alto e bem claro, que não assinamos um cheque em branco, ao confirmarmos o nosso voto na urna. 

E isso pode ser dito nas ruas, pode ser dito nas redes sociais, pode ser dito nas reuniões para discutir pautas do congresso, e mais importante de tudo, pode e deve ser dito por todos, independente de credo, etnia, ideologia, preferências sexuais etc 

Não podemos alijar pessoas que defendem e que lutam pelas mesmas coisas que queremos, porque elas são de partido A ou B. Se estão nas mobilizações para somar, por que não?

Atenção para as janelas no alto
Atenção ao pisar o asfalto, o mangue
Atenção para o sangue sobre o chão

E para finalizar, acredito que toda mobilização precisa de um norte. Não precisa ser uma liderança, como exigem a mídia e os nossos políticos, mas pelo menos pessoas de frente que possam falar sobre o que queremos. Não é pelos 20 centavos. Então o que queremos mesmo? Quinhentos mil itens, é muita coisa, e vira nada, quando se quer mudanças. Que não se faz num dia, nem em um semana.
Eu sei o que quero, e é por isso, que luto: 
  • Que o governo da Dilma volte a ser do povo;
  • Contra a PEC 37
  • Que Renan Calheiros saia da presidência do Senado.
  • Que Marcos Feliciano saia da Comissão de Direitos Humanos e que o próximo a assumir, seja realmente comprometido com essa causa.
  • Que o dinheiro arrecado nos royalties do petróleo sejam destinados a Educação, conforme proposta da presidenta Dilma.
  • Que a corrupção seja considerada e julgada como crime hediondo.
E, acima de tudo, quero um país melhor pro meu filho. Por acreditar nisso, luto, da maneira que posso, em todo tempo que tenho.

Mas, isso sou eu. Sei que muitos também lutam por isso, outros acrescentariam itens. E assim que se faz uma pauta de reivindicações, junto um pouco do que quero, com mais um pouco do que o outro quer, enxugamos coisas e com um denominador comum, apresentamos aos destinatários competentes.

E, com um pouco da experiência que tive em mobilizações sociais. Passeata sem fim, estimula vândalos, que buscam extravasar sua raiva e frustração. Acho que é o que está faltando nas passeatas é uma finalização. Seja uma vigília na frente de um prédio simbólico, seja acendermos velas neste mesmo prédio, seja um enterro simbólico da educação, saúde, copa, etc Mas algo que permita um clímax concreto e não deixe apenas uma sensação de vazio, após a caminhada.
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Essa post faz parte da Blogagem Coletiva #PROTESTOMATERNO da qual, fui convidada a fazer parte.

A ideia é fazer com que nós, mães que não podemos irmos à rua nas manifestações, possamos também mostrar que queremos mudanças!

Para ver outros posts com o tema Protesto Materno, visite a página do grupo, no Facebook: Protesto Materno

(Música utilizada para pontuar: Divino Maravilhoso - Gal Gosta)

19 de jun de 2013

#Vemprarua Parte I

Há uma semana o Brasil não para. Em todos as capitais, praticamente em todas as cidades, falados ou não na mídia, o Brasil grita sua insatisfação! Todos já sabemos que não é apenas R$ 0,20, até mesmo a imprensa parou de repetir isso.

Conseguimos também entender que existem grupos diferentes nas manifestações, os que estão lá porque querem mudança de maneira pacífica e legal. Esses são, felizmente, a maioria! Os que também querem mudança, mas acham que tem que ser mais radicais, são os que querem a destruição das instituições, por isso a invasão e depredação de imóveis e monumentos, que simbolizam essas instituições; E, por fim,  os que se utilizam dos manifestantes para fazerem o que eles já faziam antes: serem bandidos, são os que saqueiam, promovem arrastões etc

Do outro lado, temos a mídia, analistas sociais, esquerda e direita e principalmente, políticos estarrecidos sem entender o que aconteceu. Afinal, como imaginar uma mobilização nacional desse porte sem lideranças expressivas, sem partidos aparelhando por trás?

Em todas as mobilizações que nós tivemos nesse país, havia claramente delimitado, lideranças e um propósito único. Exemplo: Diretas Já, atos em defesa de algumas mudanças na Constituição, Fora Collor e contra as privatizações. E, voltando mais no tempo ainda, os jovens que lutavam pela volta da Democracia – nos tempos de chumbo da ditadura.

Mas, o que acontece no nosso país há uma semana, nunca aconteceu antes! Se foram as redes sociais, se foram os novos ventos que sopram no mundo, não dá para saber...

O que dá para ver nitidamente, é a urgência de uma mudança, e, que não dá para tentar encaixar quase meio milhão de pessoas nas ruas, (sem contar as que como eu, não podem ir às ruas, mas que estão juntos com esses que estão),  a velha forma de pensar a política no Brasil.

Aliais, vendo o silêncio assustado das nossas representações políticas,  percebo claramente que esses ainda apostam na velha fórmula, escondidos em seus gabinetes. E que esse silêncio pode ser traduzido da seguinte maneira: Deixa os meninos fazerem esse auê todo, que daqui a pouco eles cansam e tudo volta ao “normal”.


E eles se enganam, e muito. Nada vai voltar ao normal. Da mesma maneira que um rio represado, constrói novos percursos para chegar ao seu destino final, é assim que enxergo essas mobilizações. Há décadas de indignação represadas e agora, que o grito começou a ser liberado, não há ninguém, nem nada que vá fazer o silêncio voltar.


(Texto dividido em duas partes, sexta tem mais)

14 de jun de 2013

Os 20 Centavos Nossos de Cada Dia


A matemática costuma não falhar. Nem mesmo quando sai dos frios números e invade os lares. De repente, todo mundo quer saber: Tudo isso por causa de R$ 0,20? Para entender isso vamos brincar de equação de 2º grau, onde x² + x + y = 0,20. Onde X pode ser igual a mais de 1,5 milhão de assinaturas pedindo o impeachment do presidente da Casa, senador Renan Calheiros - devido a uma série de acusações de corrupção e etc. X também pode ser o número de pessoas indignadas ao verem assumir a Comissão de Direitos Humanos, o Deputado Marco Feliciano, conhecido pelo discurso claramente racista, homofóbico e muitas vezes, misógino. X também pode representar as inúmeras desapropriações feitas de maneira truculenta por todo o país, para que a marcha da Copa desse sequência. Pode ser também as leis que surgem para evitar que políticos corruptos sejam investigados, tais como a PEC 37.


E temos o Y, que são os gritos das mulheres que estão vendo toda sua luta secular ser rasgada, por um tal  Estatuto Nascituro que nos trata como receptáculos, seja para gerar o filho de um estuprador, seja para gerar um natimorto, seja para morrermos, sem podermos ser tratadas...  Representa também as filas nos hospitais sem previsão de atendimento, as escolas públicas sem qualidade, os professores agredidos no contracheque e no seu cotidiano em sala de aula. 


E, é claro,  o transporte público que nós carrega feito gado, onde só podemos rezar para que nada nos aconteça aquele dia, nem assalto, nem acidente, nem assédios (se formos mulheres) e suspirar aliviados ao chegarmos em casa, com os nossos entes queridos, ilesos, após mais um dia.

E quando a gente monta essa equação, é fácil perceber que os tais 20 centavos no aumento das passagens é apenas uma gotinha d'água, num copo que já estava para transbordar faz tempo!

E o copo quando transborda, faz barulho. A corrente não pode mais ser contida em indignações onlines. Em manifestações nas Redes Sociais. Quando não se ouve a voz do povo, sendo dita através de instrumentos legítimos tais quais, abaixo-assinado, reuniões de gabinetes... É preciso GRITAR. E, não tem jeito, nem fórmulas mágicas: Esse grito só é dado nas ruas. Onde meus passos, encontram outros passos que caminham em uníssono em prol dos nossos direitos.

Quando o protesto atinge as ruas, além de alavancar a visibilidade daquilo pelo qual se luta, democratiza publicamente, o que até então estava restrito a gabinetes e afins.

O triste é ver a História ser repetida. Quando os jovens foram as ruas na década de 70 para contestar o regime militar, não se iludam, foram também chamados de baderneiros, vândalos, subversivos, que era a palavra da moda. E as cenas que assistimos estarrecidos nos últimos dias, lembraram de maneira dolorosamente aguda, às assistidas  naquela década.

30 anos depois, os jornais, os políticos (muitos deles, os jovens subversivos de outrora), e uma parcela da população vociferam contra os vândalos, baderneiros, subversivos atuais... igualzinho a antes, até mesmo na porrada... 

Ah, mas teve gente depredando o patrimônio público, você dirá. Sim, não nego. Alguns para se defenderem, outros porque são vândalos mesmo. Mas, até no melhor saco de feijão, vão existir grãos ruins, mas ninguém joga o saco fora, por causa disso,  e sim descarta aqueles que não prestam...

E, só pra encerrar, ninguém faz faxina na casa, sem arrastar os móveis. E esse país, tá muito precisado de uma boa faxina. E, sabe, na próxima passeata, eu também vou pra rua, ajudar a arrastar os móveis.







4 de jun de 2013

Mentiras

Finge calmarias que não sente. Resignações que não possui. Ouve frases que machucam com um plácido sorriso no rosto. Implora perdões por erros que não cometeu. Ingere mágoas e tranqüilizantes que permitem um sono sem sonhos, sem planos, sem ausências, que ela finge não sentir.

Fala frases que não acredita e ri, gargalhada triste, enquanto engole o nó que não se desfaz em sua garganta. Oculta na face serena dores intangíveis e se obriga ao riso amargo da ironia, enquanto se veste de forte.

Chora sozinha sentada no frio piso do banheiro, deixando que a água que cai, misture-se as suas águas internas.

(Texto republicado)